Entrevista: force commander da Missão de Paz no Haiti, general Ajax

Brasília, 18/03/2016 – Em fevereiro de 2004, uma resolução do Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU) decidiu criar uma missão de paz para restabelecer a segurança e normalidade institucional do Haiti, país da América Central que sofreu sucessivos episódios de turbulência política e violência.

Desde sua criação, a Missão das Nações Unidas para Estabilização do Haiti (Minustah) tem um oficial militar brasileiro como comandante-geral das forças de paz no país caribenho – cargo nominado pela ONU de force commander, ou comandante da força, em uma tradução literal. Atualmente, cabe ao general de divisão Ajax Porto Pinheiro a tarefa de comandar um efetivo total de 2.370 homens, de 19 diferentes nacionalidades.

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No começo deste mês, o general recebeu uma equipe da Assessoria de Comunicação do Ministério da Defesa em seu gabinete, em Porto Príncipe. Ele falou sobre a experiência de comandar militares de vários lugares do mundo, os desafios de se estar à frente da missão e a importância para o Brasil de contribuir com o sucesso da Minustah. Confira, abaixo, a íntegra da entrevista.

Ministério da Defesa: General, qual é o papel do Brasil dentro da Minustah e quais são as implicações para o País em se ter um force commander brasileiro?

General Ajax: A participação do Brasil na Minustah remonta a 2004. Os soldados brasileiros foram os primeiros a desembarcar no Haiti após a grande crise em que o país se viu envolto, com a saída abrupta do presidente da república na época. Nós fomos os primeiros a chegar. Depois desembarcaram as outras tropas de países contribuintes. O Brasil sempre manteve um grande efetivo na Minustah.

Hoje, nós somos 2.370 militares, dos quais 978 são brasileiros. Ou seja, isso dá pouco menos que a metade do efetivo total. É uma forma de contribuir para a estabilização do Haiti, que se localiza numa região estratégica para o Brasil, e que vive de crises sequenciais. De 1957 a 1986, sob a presidência do Papa Doc e Baby Doc, o país viveu um período conflituoso e violento. Nos idos de 1970, houve uma tentativa de golpe de Estado contra o Papa Doc, o que provocou uma reação violenta do governo. De 1991 a 1994, com a deposição do presidente Arisitide, o Haiti viveu outro período de crise. Em 2004, com a segunda deposição de Aristide, o Haiti esteve à beira de uma guerra civil. Ou seja, o Haiti vive esses momentos de instabilidades constantes e rotineiros. A cada 10 anos, a cada 15 anos, o Haiti passa por uma crise muito séria. E o Brasil e as tropas da ONU estão aqui para garantir – e o fazemos há 12 anos – a estabilidade do país, para que ele consiga finalmente trilhar o caminho da prosperidade e da legalidade.

A presença do Brasil é muito importante. Para as Forças Armadas, é a oportunidade que nós temos, por exemplo, de treinar a nossa logística. Não é fácil deslocar toda uma estrutura militar para uma ilha do Caribe. A Marinha do Brasil, com seus navios, e a Força Aérea Brasileira, com suas aeronaves, desempenham um papel crucial no deslocamento dessas tropas e dos equipamentos. Nossos soldados, ao virem para cá, treinam no país, e esse treinamento tem evoluído muito – eu comparo com 2010, quando eu preparei a tropa para vir ao Haiti, com as que chegam hoje, as quais são cada vez mais bem preparadas. E isso é bom para as Forças Armadas, porque, como revezamos as tropas do Exército e dos fuzileiros navais a cada seis meses, estamos em constante evolução doutrinária. Pode-se afirmar que essa missão tem sido uma grande escola.

Por que o force commander da Minustah é sempre um brasileiro?

Hoje, a ONU tem 16 missões no mundo, sendo a maioria delas na África. Ou seja, há 16 force commanders mundo afora. Por exemplo, o force commander do Sudão do Sul é chinês; um paquistanês comanda as tropas internacionais no Saara Ocidental. Ou seja, cada país tenta exercer influência na ONU para que o líder militar da missão seja do seu país. É um sinal de prestígio ter um general seu comandando tropas internacionais.

O Brasil conseguiu, quando veio para o Haiti, negociar e estabelecer que o force commander fosse brasileiro. O deputy force commander da Minustah é um general de brigada chileno. E a ONU aceitou que o force commander se mantivesse sempre com o Brasil. Aqueles países que têm mais influência na ONU, em termos de missão de paz, que contribuem com mais tropas, têm mais chance de emplacar um force commander.

Para o Brasil, é um sinal de grande prestígio. Eu já sou o 11° brasileiro na função, desde 2004. E espero que, se a missão continuar, se mantenha assim, e venha outro brasileiro para me substituir.

O senhor já comandou o Brabat (Batalhão brasileiro de infantaria e força de paz) em uma ocasião anterior. O que a experiência durante esse período acrescentou à sua bagagem militar?

A minha tropa foi treinada em 2009. Era uma tropa da Brigada Paraquedista. O coração do meu batalhão era a Brigada de Infantaria Paraquedista do Rio de Janeiro. Havia tropas da 9ª Brigada de Infantaria Motorizada, que também fica no Rio; e tropas da 4ª Brigada, que é de Minas.

Na época, o efetivo brasileiro era de 1.300 soldados, aí incluída a Companhia de Engenharia (que não compõe o Brabat) e o Grupamento Operativo dos Fuzileiros Navais. Havia também um pelotão paraguaio dentro do batalhão brasileiro. Essa tropa treinou em 2009 para assumir as funções a partir de janeiro de 2010.

A principal missão nossa, para a qual nos preparamos, era a garantia das eleições que ocorreriam em 2010, à semelhança do que está ocorrendo aqui novamente. Essas eleições, no entanto, só foram realizadas bem depois, porque no dia 12 de janeiro de 2010 ocorreu o terremoto. A primeira leva de soldados saiu do Rio no dia 10. Chegaram aqui no dia 11. No dia 12, o Brabat iniciou os reconhecimentos e a substituição como havia sido planejado.

Naquele dia, houve uma reunião para tratar da passagem de função do Brabat, na sede da ONU, que à época ocupava o hotel Christopher. Esse prédio desabou e a maioria dos que lá estavam morreram, incluindo cinco militares brasileiros. Em outros locais, morreram mais treze militares do Brasil. A partir daí, a missão mudou. Eu, no Brasil, não sabia o que estava acontecendo. A segunda leva de soldados veio para cá no dia 12 e não conseguiu desembarcar, porque a torre do aeroporto estava inoperante e a pista havia rachado. Não tinha como pousar aviões no Haiti no dia 12 de janeiro. Esse avião, com 130 soldados – a segunda leva -, retornou para o Brasil.

Nós refizemos todo o planejamento de transporte de tropas. Eu, o subcomandante e o estado-maior embarcamos nesse segundo voo, chegando ao Haiti na semana seguinte ao terremoto. A partir daquele momento, entendemos que a missão era completamente diferente daquela para a qual havíamos nos preparado. Nós tínhamos treinado para garantir a segurança de eleições que não ocorreriam mais.  Como efeito do terremoto, que destruiu os presídios, todos os criminosos condenados agora estavam soltos, ou porque fugiram quando o principal presídio do país ruiu, ou porque foram liberados, pois não tinha como mantê-los presos – iriam morrer nas celas. A partir da segunda semana após o terremoto, um dos focos da missão passou a ser a captura das gangues. Além disso, o batalhão executava operações de ajuda humanitária todos os dias no período da manhã. À tarde e à noite, nos equipávamos e íamos capturar as gangues de Cité Soleil, Cité Militaire, Bel-Air e em outras regiões da capital. Havia dias em que nós prendíamos uma quadrilha inteira reunida, tramando alguma coisa. A gente chegava, cercava e prendia 15 bandidos, de uma vez só. Eles eram de alta periculosidade, eram os criminosos condenados que estavam soltos. Foi um período muito conturbado.

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Nesse momento, chegaram tropas internacionais que não pertenciam à ONU. Os americanos operaram com algo em torno de 15 mil militares. Esses militares estavam indo ou voltando do Afeganistão e Iraque, eram tropas muito bem treinadas, mas não participavam das missões de segurança. A segurança era problema nosso. Eles participavam apenas de ajuda humanitária. Mas nós também os apoiávamos. Entregávamos diariamente em torno de 80 toneladas de alimentos do World Food Programme. Essa quantidade é mais ou menos o que distribuímos no Brasil quando temos alguma tragédia, como enchentes, deslizamentos… No Haiti, o Brabat distribuía essa quantidade todos os dias. Teve uma vez que nós entregamos 320 toneladas numa única jornada. Empregávamos mais de dez carretas com gêneros. Essa distribuição era feita junto com os americanos. Fazíamos aquelas filas intermináveis de milhares de pessoas. As senhas eram entregues no dia anterior, para haver justiça na distribuição. Uma coisa que a gente aprendeu na época é que nessas crises muito graves tem que se agir com rigor. Não dava para fazer aquelas filas como se faz na entrega de gêneros no Natal no Brasil, em que as pessoas estão felizes, vêm cantando para a fila. Aqui, não. Aqui era uma questão de sobrevivência. Quem vinha receber gêneros e água estava numa situação instável. A qualquer momento tudo podia descambar para a violência. As tropas tinham que impor regras para que uma doação de gêneros não se transformasse num desastre. Às vezes, tínhamos que proteger as filas com blindados. Eram milhares de pessoas nas filas. Entregávamos senhas e só entravam nas filas as mães. Não entregávamos gêneros nem para crianças e nem para homens. O homem porque nós descobrimos que eles pegavam os gêneros e trocavam por favores sexuais, bebidas, vendiam. A mulher tem mais senso de proteção: ela pega a comida e leva para a família. Medicamentos a gente entregava nos postos, porque não se pode distribuir remédios nas ruas. Os gêneros vinham da WFP, que tinha grandes depósitos aqui no centro industrial deles. Nós protegíamos esse centro e também os comboios, senão seriam atacados.

Havia também as doações brasileiras. Essas doações, o batalhão brasileiro entregava em locais que nós tínhamos interesse em manter o bom relacionamento com a população. Nós fazíamos entregas de senhas, segurança e distribuição. E assim fomos conduzindo as operações nas primeiras semanas.

A engenharia teve um trabalho muito grande nessa época, que era recolher os corpos e enterrá-los em valas coletivas de 200, 100, 50 pessoas. Registrávamos e enterrávamos. As equipes de saúde do Brabat e do Braengcoy trabalharam muito. Montou-se um hospital improvisado dentro da base, onde foram realizadas várias amputações. Foram momentos dramáticos.

No Haiti inteiro foram mais de 40 mil amputações. No aniversário do terremoto, neste ano, eu fui a Léogâne, onde ocorreu o epicentro do terremoto. Fui assistir uma competição de pessoas com deficiência, amputados. Em Léogâne, que fica ao lado de Porto Príncipe, os efeitos do terremoto foram trágicos; pude constatar isso em visita recente. O hospital argentino teve uma atuação heroica naqueles dias de tragédia. Para a ONU, foi o maior desastre, a maior perda, numa missãode paz em toda a sua história. Faleceram mais de 150 civis e militares da Minustah. Morreram chineses, filipinos, brasileiros… Foi um choque. Foi uma experiência mais de vida do que militar.

A tropa reagiu muito bem. Os soldados sentiram muito. Eles tinham 19 anos. Iam à rua e viam tanta desgraça, que voltavam abalados para o batalhão. E eu proibia, dentro do batalhão, de falarem de terremoto. Naqueles dias, dentro do batalhão, eu incentivava e os forçava a estar sempre fazendo treinamento físico, correr, fazer musculação, ouvir música e contar piada. Era uma forma de não trazer o clima de desgraça que tinha na cidade pra dentro do batalhão. Eu dizia a eles que tinham que agir como médicos e dar esperança para o paciente. Tivemos que trazer para a base principal os soldados de duas sub-bases que tinham sido destruídas pelo terremoto. Como a missão mudou, as tropas tiveram que se adaptar ao novo cenário. As palavras de ordem passaram a ser flexibilidade, adaptabilidade e iniciativa.

General, vamos voltar à sua atuação como force commander da Minustah. O senhor falou que existe uma tropa de 2.370 homens sob seu comando. Quais são os países, como é essa composição, quantas nacionalidades e como é lidar com idiomas e culturas diferentes?

Nós temos hoje, na Minustah, sob meu comando, 10 unidades. São três batalhões de infantaria: o batalhão brasileiro, o batalhão chileno – no norte do país, que tem tropas de El Salvador e de Honduras -, e um batalhão com tropas do Uruguai e Peru. Temos também duas companhias de engenharia: uma brasileira e uma paraguaia. Temos um hospital de campanha, argentino. Duas companhias: uma seria equivalente à polícia do Exército do Brasil, que é da Guatemala; e outra das Filipinas. E ainda duas unidades de aviação: uma do Chile, com dois helicópteros bell, e uma de Bangladesh, com três helicópteros russos MI17. Ah, dentro do batalhão do Chile também tem três oficiais do México, que é algo inédito. É a primeira missão de paz em que o México participa.

No meu Estado-Maior, há 63 oficiais dos países já citados, e mais oficiais do Nepal, Sri Lanka, Jordânia, Estados Unidos, Canadá, Equador e Bolívia. Somos ao todo 2.370 militares de 19 nacionalidades.

O maior desafio para mim, como force commander, é ser respeitado por essas tropas, porque eles são muito bem preparados, já têm experiência de outras missões. São de países que vivem desafios em outros cenários. Há, por exemplo, oficiais do Canadá e dos Estados Unidos que já participaram de missões de combate no Afeganistão e no Iraque. Todos os oficiais dos outros países também vivenciaram experiências em situações críticas em outras missões de paz. São todos muito bons. Os países enviam os seus melhores oficiais.

Trata-se de um grupo exigente. Não são fáceis de serem convencidos. Eles precisam acreditar. E isso, para mim, talvez seja o maior desafio que já enfrentei na vida. Em 2010, eu comandava um batalhão de brasileiros. Eles estavam sujeitos aos regulamentos disciplinares do Brasil. Em termos disciplinares, era muito mais fácil conduzi-los. Com esses oficiais aqui, é uma outra situação. A carreira deles não depende de mim no futuro. Eles retornarão para os seus países e nós, provavelmente, nunca mais iremos nos ver. Eles têm vida própria no seu país, têm uma carreira própria. Ou seja, é um desafio conduzir esse grupo em momentos de crise. Eles são muito profissionais, muito competentes. Reagem com muita eficiência aos desafios. Enfim, tem sido muito gratificante isso aqui.

Um dos maiores desafios de uma missão com 19 nacionalidades, que vive momentos de tensão, é fazer com que esse grupo produza um resultado eficaz para a ONU. Aqui não podemos falhar. Eu não posso falhar. A tropa não pode falhar. O grupo entende que estamos todos no mesmo barco. Se alguém falhar, todos falham. A união do grupo é um legado deixado pelos outros force commanders.

General, como foi a sua escolha para o cargo de force commander da Minustah? Como tem sido voltar a viver no Haiti?

Eu estava numa reunião de trabalho na Argentina no dia 30 de agosto de 2015. Foi quando soube do falecimento do meu amigo Jaborandy [então force commander da Minustah]. No dia seguinte, eu recebi uma ligação do meu chefe, no Brasil, general Modesto, dizendo que eu fora proposto para a missão. Quando dei a notícia para minha esposa, ela afirmou que meu tempo no Haiti já havia passado, mas depois se acostumou com a ideia. Voltei ao Brasil no dia 6 de setembro, e comecei a me preparar para a videoconferência com Nova Iorque. Dessa entrevista, participam mais dois oficiais-generais. Após saber que havia sido escolhido, tive uma semana para embarcar para o Haiti, onde cheguei no dia 5 de outubro. Minha vida deu uma guinada. Aqui no Haiti, além das atividades de comando, aproveito o tempo livre para fazer atividades como corrida, cuidar de plantas (um dos meus hobbies) e às vezes até cozinhar. É uma forma de desestressar.

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Como o senhor avalia a contribuição do braço militar da Minustah para a força policial local do Haiti: o que é repassado e que legado está sendo deixado? E do ponto de vista da população, como a atuação militar da Minustah ajuda o país a se reerguer?

Hoje, a polícia do Haiti tem em torno de 11.500 homens. Até dezembro desse ano, ela prevê chegar em 14.600. Esse é o número que a ONU considera ideal para que eles assumam de vez a segurança do país. Sua formação técnica foi trazida de vários países, principalmente do Canadá, que contribui bastante para a formação deles. O Canadá tem ligações muito fortes com o Haiti. Há um milhão de haitianos vivendo no Canadá.

Os policiais do Haiti têm aprendido muito conosco quando fazem operações conjuntas. Tanto com o Chile, Uruguai e Peru quanto com o Brasil. De outubro até agora, nós já fizemos mais de 450 operações conjuntas. A todo momento há soldados haitianos fazendo patrulhas conjuntas com as tropas da Minustah. Nesse mês de março, por exemplo, vamos realizar 11grandes operações em Cité Soleil, em que as tropas da polícia haitiana participarão também. Dessa forma, eles aprendem conosco nossas táticas. Aos poucos, eles vão assimilando esse conhecimento.

Às vezes, o Brabat faz treinamentos com eles antes de irem para essas operações: normas, formas de agir, de atirar, de progredir, de se proteger. É um trabalho muito importante que o Brabat faz. O Chile, o Uruguai e o Peru também fazem. Fazemos várias operações empregando os helicópteros do Chile e de Bangladesh. Nessas operações pelo país, os policiais haitianos nos acompanham. É grande a contribuição que deixaremos no Haiti, no aspecto operacional.

Quanto aos haitianos, depois de 12 anos de missão, continuam nos admirando e respeitando. O que não é usual em todas as missões da ONU. No entanto, temos que estar preparados para alguma reação negativa, pois somos uma tropa internacional em um país soberano. É por isso que devemos ter muito equilíbrio e agir com muita ponderação. Deixaremos um legado de segurança e estabilidade no Haiti quando partirmos.

Fotos: PH Freitas/MD

(MD ASCOM/ FM)

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