O Exército e a Copa da FIFA

O Exército e a Copa da FIFA

T&D-Segurança foi conhecer como funcionou a estrutura de comando e controle da Força Terrestre durante o maior evento futebolístico mundial

Estamos chegando a um nível muito bom nas operações interagências no Brasil. Hoje a experiência mundial demonstra que nenhuma operação, de qualquer natureza, deixa de ser uma cooperação envolvendo as Forças Armadas em ações conjuntas e a participação de agências civis, sejam elas públicas ou privadas. Esse é o grande legado.” A afirmação é do general-de-exército Eduardo Dias da Costa Villas Bôas, comandante do Comando de Operações Terrestres (COTER), ao refletir sobre os principais ensinamentos que a “Operação Copa” deixou às forças de defesa do País, que agora já se preparam para atuar em outro evento de grande visibilidade internacional: os Jogos Olímpicos de 2016, no Rio de Janeiro (RJ).

O discurso vai de encontro às impressões que o ministro da Defesa, Celso Amorim, teve das mais variadas operações desencadeadas pelos doze Centros de Coordenação de Defesa de Área (CCDA) espalhados pelo Brasil, um para cada cidade-sede, conformados por militares e demais instituições de segurança federais, estaduais e municipais. Segundo o ministro, em coletiva de imprensa realizada um dia após o término da competição, a integração entre todos os órgãos de defesa, civil e militar, foi fundamental para que a Copa do Mundo ocorresse sem inconvenientes.

A “Operação Copa”

A “Operação Copa” foi coordenada por um triunvirato formado pelo Ministério da Defesa, Ministério da Justiça e pela Casa Civil.

Leonardo Lepri Ferro

Dentro de sua missão pontual, o Ministério da Defesa através do Estado-Maior Conjunto das Forças Armadas (EMCFA) organizou os CCDA mobilizados especificamente para defesa de estruturas estratégicas, cooperação nas fronteiras, defesa aeroespacial e marítima, segurança cibernética, prevenção e combate ao terrorismo, defesa QBRN e forças de contingência que permaneceram como reserva estratégica em uma eventual necessidade de intervenção emergencial.

O patrulhamento no entorno dos estádios, centros de treinamento das seleções participantes, “FIFA fan fests”, rede hoteleira, aeroportos e estradas ficou, majoritariamente, a cargo das instituições de segurança pública estaduais e federais, órgãos municipais e algumas empresas de segurança privada contratadas pela FIFA.

Segundo o general Villas Bôas, essa distribuição de missões obedeceu às características de emprego específicas de cada tropa, mas algumas situações exigiram a participação de vários órgãos, como foi o caso das escoltas realizadas na cidade de São Paulo (SP), por exemplo. Foram quase 500 deslocamentos de delegações ocorridos na capital paulista, a maioria sob coordenação da Polícia Militar. “Houve uma espécie de negociação em função da vocação natural de cada elemento e também da predominância de meios”, explicou o general. De fato, as corporações policiais militares estaduais chegaram a ativar os chamados “Batalhões Copa”, reunindo efetivo compatível sem afetar as atividades normais do cotidiano dessas instituições, além de terem se aperfeiçoado bastante também nas questões de comando e controle.

As Forças Armadas empregaram, aproximadamente, um efetivo de 59 mil homens durante o mês em que se desenvolveu a competição. Dos doze CCDA ativos, o Exército, operando com quase 38 mil homens, foi responsável por nove. Outros dois ficaram sob responsabilidade da Marinha, que empregou cerca de 13 mil militares, e o último aos cuidados da Força Aérea, com 8 mil integrantes.

Com exceção de Cuiabá (MT), todas as outras cidades-sedes contaram com apoio de artilharia antiaérea equipada com blindados Gepard e míssil Igla. Este sistema de defesa entrava em atividade duas horas antes do início da partida e era desmobilizado duas horas após o seu término. O Centro de Defesa Cibernética do Exército deslocou destacamentos remotos para cada CCDA e manteve guarnições permanentes no Centro de Comando e Controle da Força Terrestre (CC²FT). Nas medidas que envolveram contra terrorismo, Marinha e Exército atuaram juntos sob coordenação da Força Terrrestre. Realizaram trabalhos prévios de varredura nos estádios, em hotéis, nos centros de treinamento e comboios oficiais.

Legado

A “Operação Copa” deixou diversos pontos positivos que, certamente, servirão como ensinamentos para o Brasil completar sua preparação tendo em vista as Olimpíadas de 2016. Mas uma experiência em especial, adquirida nesta Copa, serviu como alerta daquilo que poderá surgir em maior número num futuro próximo: os drones. “Estes VANTs estão virando uma commodity e podem constituir-se em uma ameaça potencial.” advertiu o general Villas Bôas. No Brasil há uma carência de regulamentação específica para esses drones, além da necessidade urgente de melhoria nas medidas anti-VANT das Forças Armadas, como aquisição de novos sistemas interferidores. Alguns problemas deste tipo foram identificados e só puderam ser solucionados graças à cooperação da Agência Nacional de Telecomunicações (ANATEL), que utilizou radiogoniômetros para localizar a posição dos operadores e informar as patrulhas próximas.

Leonardo Lepri Ferro

Além da consolidação desta capacidade de operação interagências, o comandante do COTER destacou a oportunidade de reequipamento, tanto coletivo como individual, que o Exército realizou. Observou que um evento deste porte também consiste em uma das melhores maneiras de se movimentar a indústria, principalmente a nacional, já que a maioria das novas viaturas da Força Terrestre foram adquiridas de empresas brasileiras.

Sobre o adestramento da tropa, fez questão de destacar o intercâmbio realizado em países com experiência comprovada em eventos de massa, mas descartou a necessidade de desenvolvimento de uma nova capacidade operacional. “Tivemos apenas que aperfeiçoar o que já treinávamos devido aos novos equipamentos que foram adquiridos.” explicou.

Para o Exército, talvez a maior herança seja o novo Centro de Comando e Controle da Força Terrestre (CC²FT) localizado no Quartel General do Exército, em Brasília (DF). As instalações foram remodeladas especialmente para a “Operação Copa” e possuem uma configuração que une consciência situacional e superioridade de informações. O Centro possui equipamentos de última geração que permitem a integração entre os diversos comandos da Força Terrestre, bem como o acompanhamento, coordenação das operações e gerenciamento de crises.

“Temos um Centro de Comando essencialmente para operações conjuntas, reunindo as três Forças. Queremos evoluir o CC²FT para um Centro de Comando Integrado, com flexibilidade para ser ajustado aos diferentes tipos de operações e com capacidade para agir interagências, adequado aos modus operandi de cada uma. Isso fará parte do projeto Proteger, que estará integrado ao SISFRON”, antecipou.

O CC²FT foi concebido para ser uma ferramenta de uso do COTER capaz de associar os diversos sistemas, tais como Aviação do Exército, defesa química, biológica, radiológica e nuclear, monitoramento de fronteiras, operações de apoio à informação, simulação de combate, proteção de estruturas estratégicas terrestres, comando e controle e de informações operacionais.

Os operadores do Centro contam com alguns softwares de controle e de apoio à decisão. O “Programa C² em Combate” e o “Sistema Pacificador” possibilitam a manutenção da consciência situacional no emprego da tropa com acompanhamento da missão em tempo real.

O “Sistema Pacificador” foi realizado pelo Centro de Desenvolvimento de Sistemas do Exército (CDS). Foi utilizado pela primeira vez durante os Jogos Mundiais Militares, em 2011, e trafega seus dados por meio de uma rede segura (https). Sua principal característica está na possibilidade de ser atualizado pela tropa, uma vez que o comandante de pelotão ou do grupo de combate, através de um smartphone, abastece o sistema com imagens e informações instantâneas.

Durante a “Operação Copa”, o CC²FT acompanhou exclusivamente o emprego das tropas do Exército em todas as sedes onde atuaram. Para isso, adotou seu dispositivo expandido que permite a ativação de postos de trabalhos adicionais. Nesses “postos de combate”, além de militares do próprio COTER, sentaram-se oficiais de ligação de diversos órgãos e comandos do Exército envolvidos na operação. Essa disposição representou em um significativo ganho de tempo e maior facilidade na comunicação entre os comandos participantes.

Apesar da aparente facilidade por tratar-se de um evento realizado em uma única cidade, os Jogos Olímpicos inspiram grande preocupação em função das diversas competições que ocorrerão simultaneamente. Ao todo serão 41 modalidades em pouco mais de duas semanas de competição. “A Copa nos proporcionou uma experiência muito boa, mas os Jogos Olímpicos é um evento mais intenso.” reforçou o General Villas Bôas.

(CCOMSEX/ FM)

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