Saiba como estão as famílias repatriadas pela FAB após terremoto no Equador

Conheça a história de três famílias que vivenciaram o pior terremoto do Equador dos últimos 30 anos e voltaram para o Brasil nas asas da FAB

Era por volta de 18h50min do dia 16 de abril e a paulista Adriana Astorino via televisão com as filhas Domenica, de 7 anos, e Hannah, de 2, na cidade equatoriana de Guayaquil. Morando no país há onze anos, a educadora física – que saiu do Brasil com um contrato de trabalho que, a princípio, duraria apenas três meses – logo percebeu que aquele tremor de terra não era como os outros a que já estava habituada. “Os tremores são normais no Equador, uma ou duas vezes ao ano. Mas não naquela intensidade. As coisas caíam, nós não conseguíamos ficar em pé. O terremoto não durou nem um minuto, mas para mim foi uma eternidade”, relembra Adriana.

terremoto no Equador 1

Terremoto teve 7.8 graus na escala Richter

Com os sistemas de comunicação em pane, as notícias de que aquele havia sido o pior terremoto do Equador nos últimos trinta anos, com 7.8 graus na escala Richter, começaram a chegar apenas depois de algumas horas. Mesmo localizada a quase duzentos quilômetros de distância de uma das cidades mais atingidas, Manta, o município de Guayaquil registrou desabamentos de prédios e viadutos. De acordo com Adriana, o país não possui normas muito severas em relação à proteção das edificações contra terremotos; apenas construções mais novas e em áreas mais nobres estão equipadas com estruturas antissísmicas.

“A partir daquele dia, nossa vida virou de cabeça para baixo. Hannah ficou traumatizada, tinha dificuldade para dormir. A orientação era para que ficássemos sempre em condições de abandonar nossas casas, então deixamos uma mala de emergência pronta e dormíamos na sala. Eu e meu marido nos revezávamos em turnos para um de nós estar sempre acordado”, relembra.

Adriana e as filhas Hannah e Domenica/ Arquivo Pessoal

Adriana e as filhas Hannah e Domenica/ Arquivo Pessoal

A brasileira decidiu, então, que deixaria o país. Só não sabia como. O valor das passagens estava em torno de 2 mil dólares, Adriana não possuía cartão de crédito e, como a economia ficou paralisada nos dias seguintes, só se vivia com o dinheiro que se tinha no bolso. Após um apelo nas redes sociais, ela recebeu um comunicado da Embaixada de que uma aeronave da Força Aérea Brasileira partiria dentro de dois dias e os traria de volta ao País.

A aeronave em questão era um C-105 Amazonas do Esquadrão Arara (1º/9º GAV), que partiu de Manaus (AM) com mais de 1,5 ton em medicamentos, vacinas e material de consumo hospitalar. Durante nove dias, a tripulação, de dez militares, ficou à disposição da adidância militar no Equador, realizando missões de transporte, principalmente na descentralização de donativos, entre a capital Quito, Guayaquil e Manta. No retorno para casa, além da sensação de dever cumprido, a tripulação também trouxe consigo três famílias brasileiras que foram repatriadas – entre elas, Adriana e as duas filhas. O esposo, que é equatoriano e tinha familiares entre os mais de 600 mortos na tragédia, permaneceu no país para prestar apoio aos parentes.

“Cheguei a Manaus com 60 dólares no bolso, era tudo o que tinha. A passagem para São Paulo, onde vivo hoje, com meus pais, foi comprada por eles. Pedi ajuda a um tenente para que eu conseguisse ir até um hotel, pois meu voo era só no dia seguinte. Ele me deu o dinheiro para o táxi e, no outro dia, uma carona para o aeroporto. Não tenho palavras para agradecer pelo que a Força Aérea fez por nós”, afirma.

“Vocês são anjos para a população brasileira”

Também estavam a bordo do Amazonas da FAB o capixaba Bruce Nogueira, a esposa e o filho de dois anos. A família, que já estava em uma situação desconfortável no país, devido à dificuldade em manter-se trabalhando, passou a viver com medo de desabamento do apartamento onde moravam, devido ao comprometimento das estruturas. O brasileiro conta que chegou a deixar uma lata cheia de parafusos no parapeito de uma janela mais alta, para que qualquer possível tremor os despertasse e pudessem deixar a casa imediatamente.

Bruce, a esposa e o filho vivem, agora, no Espírito Santo / Arquivo Pessoal

Bruce, a esposa e o filho vivem, agora, no Espírito Santo / Arquivo Pessoal

“Se não fosse a FAB, estaríamos no Equador, vivendo com medo, pois não tínhamos quaisquer condições de voltar. Vocês são anjos para a população brasileira”, afirma Bruce, que agora mora em Guarapari, no litoral do Espírito Santo.

A terceira família que estava a bordo era a do goiano Gilson Dantas Carmini – que também voltou ao País com a esposa e o filho de 8 anos. A esposa, Tayykorin, que é equatoriana, deixou a mãe, pai e três filhos, já adultos. “Fiquei muito indecisa sobre vir ou não; em um dia queria, no outro desistia. Tive que tomar duas pílulas para os nervos, mas quando o avião subiu e estabilizou, fiquei tranquila, graças à tripulação, que nos tratou como uma grande família. Eles me ajudaram a superar aquele momento triste que estava vivendo”, emociona-se.

“A missão me fez refletir sobre como as coisas simples da vida realmente importam”

O Tenente Mauricio Siqueira foi um dos seis pilotos dessa missão. Ele conta que, além do transporte de cargas, o Esquadrão também transportou cidadãos que perderam suas casas e queriam se alojar na residência de familiares em áreas menos afetadas. Ao todo, foram mais de 30 horas de voo que desafiaram a tripulação: além da altitude elevada de Quito e das condições meteorológicas instáveis da região, a torre de controle de Manta havia desmoronado, em partes, e não estava operacional. Apenas aeronaves militares podiam operar lá.

Gilson Dantas, a esposa e o filho/André Feitosa - Agência Força Aérea

Gilson Dantas, a esposa e o filho/André Feitosa – Agência Força Aérea

“Nunca tinha participado de uma missão com esse vulto internacional. Ela me ajudou muito a amadurecer como piloto e pessoa, me fez refletir sobre como as coisas simples da vida são realmente o que importam. Eu via famílias que levavam consigo apenas uma mala e esperança em dias melhores, o resto simplesmente acabou. Mesmo não sabendo nossa língua, agradeciam em espanhol e, em seguida, abriam um sorriso que enchia a tripulação de alegria”, relembra o piloto.

De volta ao solo brasileiro

O processo de repatriação é conduzido pelo Ministério das Relações Exteriores por meio da Embaixada e é iniciado a partir de um pedido do próprio brasileiro. O cidadão precisa comprovar sua condição de desvalido, ou seja, total impossibilidade de se manter no país e de retornar ao Brasil por meios próprios. Segundo o Adido de Defesa e Aeronáutico do Brasil no Equador, Coronel Lélio Pinheiro da Silva Junior, todos os pedidos de repatriação após o terremoto foram atendidos pela FAB.

“Apesar de o sismo ter sido sentido em praticamente todo o país, as áreas mais atingidas foram os estados de Manabi e Esmeralda. Nesses locais, toda a infraestrutura ficou colapsada, como luz, água tratada, telefone, estradas, hospitais. Em cidades como Pedernales, 80% das edificações foram destruídas. Os números oficiais são de 659 mortos e mais de 26 mil pessoas desabrigadas”, afirma o Adido.

(CECOMSAER/ FM)

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